Poucas histórias da Bíblia são tão conhecidas. Um pai, dois filhos, uma herança, uma festa. Quem conta é Jesus, no evangelho de Lucas, e são só vinte e dois versículos, que se leem em quatro minutos. Mesmo assim, gente de todas as idades volta a ela sempre que se sente longe de casa, ou cansada de esperar em casa.

Neste artigo você encontra o texto completo na Bíblia Livre 2018, o motivo pelo qual Jesus contou a história, uma explicação cena por cena e duas tabelas para deixar tudo claro. No final há uma pergunta pessoal e uma oração curta. Se procura outras passagens sobre o assunto, temos uma lista de versículos sobre perdão.

Do que trata a parábola do filho pródigo?

Trata de um jovem que pede a parte da herança que lhe cabe, vai para uma terra distante e gasta tudo. Vem a fome, ele acaba cuidando de porcos e decide voltar para a casa do pai para pedir trabalho como empregado. O pai o vê chegando de longe, corre, o abraça e organiza uma festa. O irmão mais velho, que nunca saiu de casa, fica irritado e não quer entrar. Jesus termina a história com o pai implorando que ele venha para dentro.

A palavra “pródigo” quer dizer aquele que gasta demais, sem medida. Por isso o filho mais novo recebe esse nome. Muitos estudiosos preferem falar da parábola do pai misericordioso, porque na segunda metade quem mais age é o pai.

Para quem Jesus contou essa parábola?

Para entender bem, é preciso ler o começo do capítulo. Lucas 15 abre com uma cena de tensão. De um lado, pessoas que a sociedade desprezava se aproximam de Jesus. Do outro, os mestres da lei o criticam por isso.

“E chegavam-se a ele todos os publicanos e pecadores para o ouvirem. E os fariseus e escribas murmuravam, dizendo: Este recebe aos pecadores, e come com eles. E ele lhes propôs esta parábola, dizendo:”
Lucas 15:1-3

Jesus responde com três histórias seguidas. Nas duas primeiras, algo se perde, alguém procura até achar e há uma festa no final. Depois de cada uma, ele explica o sentido:

“Digo-vos, que assim haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento.”
Lucas 15:7

Com a moeda acontece o mesmo, e o fecho diz: “Assim vos digo, que há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende.” Esse fecho diz muito: cada vez que alguém volta, o céu comemora. A terceira parábola, a do filho perdido, é a mais longa e a mais humana, e é a que muita gente chama de “filho pródigo”.

ParábolaO que se perdeQuem procuraComo terminaVersículos
A ovelha perdidaUma ovelha de cemO pastor, que deixa as noventa e noveFesta com amigos e vizinhosLucas 15:4-7
A moeda perdidaUma moeda de dezA mulher, que acende a lâmpada e varre a casaFesta com amigas e vizinhasLucas 15:8-10
O filho perdidoUm filho de doisO pai, que espera e vai ao encontro deleFesta com música e dança, e um irmão mais velho do lado de foraLucas 15:11-32

Repare numa coisa. Nas três histórias, quem se perde vale muito para quem o perdeu. E nas três, a alegria de reencontrar é grande. Os fariseus criticavam Jesus por sentar à mesa com pecadores. Jesus responde com três quadros em que comer e celebrar com quem volta é a coisa mais natural do mundo.

A parábola completa: Lucas 15:11-32 (Bíblia Livre 2018)

Aqui está o texto inteiro, como aparece na Bíblia Livre 2018, que é de domínio público. Dividimos em cinco trechos para ler com calma.

“E disse: Um certo homem tinha dois filhos. E disse o mais jovem deles ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me pertencem. E ele lhe repartiu os bens. E depois de não muitos dias, o filho mais jovem, juntando tudo, partiu-se para uma terra distante, e ali desperdiçou seus bens, vivendo de forma irresponsável. E ele, tendo já gastado tudo, houve uma grande fome naquela terra, e ele começou a sofrer necessidade. E foi, se chegou a um dos cidadãos daquela terra; e este o mandou a seus campos para alimentar porcos. E ele ficava com vontade de encher seu estômago com os grãos que os porcos comiam, mas ninguém as dava para ele.”
Lucas 15:11-16
“E ele, pensando consigo mesmo, disse: Quantos empregados de meu pai tem pão em abundância, e eu aqui morro de fome! Eu levantarei, e irei a meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu, e diante de ti. E já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como a um de teus empregados.”
Lucas 15:17-19
“E levantando-se, foi a seu pai. E quando ainda estava longe, o seu pai o viu, e teve compaixão dele; e correndo, caiu ao seu pescoço, e o beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu, e diante de ti; e já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai disse a seus servos: Trazei a melhor roupa, e o vesti; e ponde um anel em sua mão, e sandálias nos seus pés. E trazei o bezerro engordado, e o matai; e comamos, e nos alegremos. Porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha se perdido, e foi achado. E começaram a se alegrar.”
Lucas 15:20-24
“E seu filho mais velho estava no campo; e quando veio, chegou perto da casa, ouviu a música, e as danças. E chamando para si um dos servos, perguntou-lhe: O que era aquilo? E ele lhe disse: Teu irmão chegou; e teu pai matou o bezerro engordado, porque ele voltou são. Porém ele se irritou, e não queria entrar. Então o seu pai, saindo, rogava-lhe que entrasse.”
Lucas 15:25-28
“Mas o filho respondendo, disse ao pai: Eis que eu te sirvo há tantos anos, e nunca desobedeci tua ordem, e nunca me deste um cabrito, para que eu me alegrasse com meus amigos. Porém, vindo este teu filho, que gastou teus bens com prostitutas, tu lhe mataste o bezerro engordado. E ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas. Mas era necessário se alegrar e animar; porque este teu irmão estava morto, e reviveu; e tinha se perdido, e foi encontrado.”
Lucas 15:29-32

Explicação da parábola, cena por cena

Cena 1: o pedido e a partida (Lucas 15:11-13)

O filho mais novo diz ao pai: dá-me a parte que me pertence. Pela lei de Moisés (Deuteronômio 21:17), o filho mais velho recebia porção dupla. Com dois filhos, o mais novo teria direito a um terço dos bens. O que chama atenção é o momento do pedido: o pai estava vivo. Pedir a herança em vida era muito incomum e doía em qualquer família.

O pai não discute. Reparte os bens. Esse gesto já mostra o caráter dele: deixa o filho escolher, mesmo sabendo que pode dar errado. Poucos dias depois o jovem junta tudo e parte “para uma terra distante”. Lá desperdiça seus bens “vivendo de forma irresponsável”.

Cena 2: a fome e os porcos (Lucas 15:14-16)

Quando o dinheiro acaba, chega uma grande fome. Ninguém o ajuda. Ele consegue trabalho com um cidadão daquela terra, que o manda cuidar de porcos. Para um israelita, o porco era animal impuro (Levítico 11:7), então esse era o serviço mais baixo que um jovem judeu poderia fazer. Jesus pinta o quadro inteiro: o rapaz tem tanta fome que deseja os grãos que os porcos comiam, e ninguém lhe dá.

Esse é o ponto mais baixo da história. Ele já não tem dinheiro, amigos, comida nem casa. E é justamente aqui que acontece a virada.

Cena 3: “pensando consigo mesmo” (Lucas 15:17-19)

O texto diz que ele, “pensando consigo mesmo”, lembra da casa do pai. Recorda que até os empregados de lá têm pão em abundância. Decide levantar-se e ir. Ensaia um discurso: reconhecer que pecou contra o céu e diante do pai, aceitar que já não merece ser chamado de filho e pedir que o trate como um empregado.

Esse discurso é muito humano. Quando alguém volta depois de errar, costuma levar as frases prontas. O jovem não pede para voltar a ser filho. Contenta-se com um lugar de empregado. Jesus não explica se o arrependimento era perfeito ou misturado com fome. O que ele conta é que o rapaz se levantou e voltou.

Cena 4: o pai corre (Lucas 15:20-24)

Esta é a cena central. “E quando ainda estava longe, o seu pai o viu, e teve compaixão dele; e correndo, caiu ao seu pescoço, e o beijou.” Isso quer dizer que o pai estava olhando para a estrada. E, em vez de esperar de braços cruzados, ele correu. Muitos estudiosos observam que um homem mais velho correndo pela estrada não era uma imagem comum naquele tempo. Jesus a escolhe de propósito.

O filho começa o discurso, mas não chega ao fim. No versículo 21 ele diz que pecou e que já não é digno de ser chamado filho. A parte do “faze-me como a um de teus empregados” não aparece: o pai o interrompe com ordens aos servos. Traz a melhor roupa, um anel e sandálias, manda matar o bezerro engordado e prepara uma festa. As palavras dele resumem tudo: “este meu filho estava morto, e reviveu; tinha se perdido, e foi achado”.

Cena 5: o irmão mais velho (Lucas 15:25-32)

Aqui a história dá uma virada que muita gente esquece. O filho mais velho volta do campo, ouve a música e pergunta o que está acontecendo. Fica sabendo que o irmão voltou e que o pai matou o bezerro engordado. Fica irritado e não quer entrar. O pai, de novo, sai. Antes tinha saído à estrada para receber o mais novo. Agora sai até a porta para implorar ao mais velho.

O mais velho tem suas razões, e diz com franqueza: anos de trabalho, obediência e nem um cabrito para festejar com os amigos. Repare como ele fala. Diz “este teu filho”, sem dizer “meu irmão”. O pai responde com outra palavra: “este teu irmão”. Lembra que tudo o que é dele também é do mais velho, e que era preciso fazer festa.

Jesus não conta se o irmão mais velho entrou. Deixa o final aberto. Os fariseus que o ouviam eram justamente o irmão mais velho da história, e a porta da festa continuava aberta também para eles.

Quem são os três personagens e o que cada um ensina?

A parábola tem três personagens principais. Esta tabela resume o que cada um faz, o que sente segundo o texto e o que podemos aprender.

PersonagemO que fazO que senteO que ensina
O filho mais novoPede a herança, vai embora, gasta tudo, passa fome, voltaImpaciência no início, vergonha e fome depois, esperança ao voltarÉ possível voltar. O primeiro passo é levantar-se e ir
O paiReparte os bens, espera, vê de longe, corre, abraça, veste, faz festa e sai para implorar ao mais velhoCompaixão e alegriaDeus recebe quem volta e sai para buscar também quem ficou do lado de fora
O filho mais velhoTrabalha no campo, fica sabendo da festa, se irrita, não entra e reclamaRaiva, comparação e sensação de injustiçaDá para estar em casa e longe do coração do pai. A alegria do pai também é para ele

Que costumes da época ajudam a entender a parábola?

Alguns detalhes da história ficam mais claros quando se conhece o modo de vida da época. Esta tabela traz só o que a maioria dos estudiosos aceita. Onde há dúvida, dizemos.

DetalheO que diz o textoComo se entendia na épocaO que transmite hoje
Pedir a herança em vida“Pai, dá-me a parte dos bens que me pertencem”A herança costumava ser recebida quando o pai morria. Pedir antes era incomum e doíaUm pedido que quebrava a confiança, e mesmo assim o pai o respeita
Cuidar de porcosO mandam “a seus campos para alimentar porcos”O porco era animal impuro para os israelitas (Levítico 11:7). Era o serviço mais baixo possívelChegar ao fundo do poço
Comer o alimento dos porcosFicava com vontade de comer o que os porcos comiamEra comida de animais. Desejá-la mostrava uma pobreza extremaNinguém lhe dava nada: estava sozinho
A melhor roupa“Trazei a melhor roupa, e o vesti”Uma roupa de honra, a que se dava a um convidado importanteO pai o restaura como filho, em público
O anel“ponde um anel em sua mão”Um anel podia servir de selo para assinar. Dar o anel era dar confiança e autoridade, como em Gênesis 41:42Ele recupera seu lugar na família
As sandálias“e sandálias nos seus pés”Os servos costumavam andar descalços. As sandálias marcavam uma pessoa livreEle é filho
O bezerro engordado“Trazei o bezerro engordado, e o matai”Era reservado para ocasiões especiais, e a carne dava para muitos convidadosUma festa de toda a comunidade
Música e dançaO irmão ouve “a música, e as danças”As festas de uma casa importante tinham música e dançaA alegria do pai é visível e barulhenta

Com qual dos três personagens eu me pareço hoje?

Ler essa parábola com honestidade significa se perguntar com quem nos identificamos. Mudamos de personagem conforme a fase da vida. Estas perguntas podem ajudar.

Se você se sente como o filho mais novo

Talvez você tenha se afastado da fé, da família ou de um relacionamento com Deus. Talvez tenha gasto anos, dinheiro ou saúde em coisas que não deram o que prometiam. Pode ser que sinta vergonha. A parábola mostra que o caminho de volta começa com uma decisão simples: levantar-se. E que o pai está olhando a estrada. O Salmo 51 é uma oração de Davi quando voltou a Deus depois de um erro grave. Você pode lê-lo devagar, com essas palavras.

Se você se sente como o filho mais velho

Talvez você cumpra tudo há anos, sirva na igreja, cuide da família, e sinta que ninguém repara. Quando alguém que errou recebe carinho, algo por dentro protesta. É uma reação humana, e o pai não o repreende. Sai e fala com ternura: tudo o que é meu é teu. O convite é entrar na festa e se alegrar pelo irmão.

Se você se sente como o pai

Talvez você esteja esperando um filho, uma filha ou um parente que se foi. A parábola não diz quando essa pessoa vai voltar. Ela mostra como esperar: com a porta aberta, sem guardar cobranças e com o olhar na estrada. Ore por ela com calma. Se quiser uma oração pronta, temos uma oração pelos filhos que você pode usar.

Uma oração curta para voltar para casa

Não precisa de um discurso ensaiado como o do filho mais novo. Estas palavras simples servem para começar. Leia devagar, ou diga com as suas próprias palavras.

O que mais ler para seguir o tema?

Se essa parábola falou com você, há outros textos que conversam com ela. O Salmo 103 diz no versículo 13 que Deus tem compaixão dos seus filhos como um pai. A oração que Jesus ensinou começa com a palavra “Pai”, e a explicamos em o Pai Nosso explicado. E para os dias em que é difícil acreditar que dá para recomeçar, reunimos versículos de esperança.

Uma última ideia. Lucas 15 tem três parábolas para que ninguém perca a mais importante: Deus se importa com quem se perde, procura e comemora quando encontra. Você pode ler os trinta e dois versículos do capítulo hoje mesmo, um por dia se preferir, e notar em qual cena você para.