Davi, o caçula de Jessé, foi ungido rei ainda pastor, venceu Golias, reinou quarenta anos e pecou gravemente com Bate-Seba e Urias. A Bíblia conta tudo em 42 capítulos, de 1 Samuel 16 a 1 Reis 2. É um arco maior do que o de qualquer outro personagem do Antigo Testamento fora dos patriarcas. A maioria dos resumos para de contar na metade: o pastor, a funda, o trono, talvez a dança diante da arca. A outra metade (o rei que manda matar o marido da mulher com quem dormiu, o profeta que aponta o dedo e diz 'tu és aquele homem', o filho que pega em armas contra o próprio pai, as últimas instruções de um moribundo que incluem acertar duas contas de sangue antigas) costuma sumir da versão contada em voz alta para criança. Abaixo está a história inteira, capítulo a capítulo, com os versículos que sustentam cada virada. A ascensão e a queda têm o mesmo peso, porque é assim que o próprio texto as conta.
Quem era Davi, e onde a história começa
Davi era o mais novo entre os filhos de Jessé, de Belém, da tribo de Judá, tão de fora do centro das atenções na própria casa que, quando o profeta Samuel chega em segredo para ungir o próximo rei, ninguém sequer o chama ao encontro; ele está no campo, cuidando das ovelhas (1 Samuel 16:11). Samuel havia sido enviado depois que o SENHOR rejeitou Saul como rei (16:1), e passa os sete irmãos mais velhos de Davi, um a um, diante de si, certo de que a altura ou o porte de algum deles vai apontar o escolhido. Diante de Eliabe, o primogênito, Samuel quase se engana, e é aí que o texto interrompe o julgamento com a frase que resume a história inteira antes mesmo de ela começar:
“Não olhes à sua aparência, nem à sua grande estatura, porque eu o rejeito; porque o SENHOR olha não o que o homem olha; pois que o homem olha o que está diante de seus olhos, mas o SENHOR olha o coração.”
Nenhum dos sete passa no critério. Só quando Samuel pergunta se há mais algum filho é que Jessé menciona o caçula, ausente porque estava com o rebanho (16:11). O texto não disfarça o detalhe: nem o próprio pai tinha considerado aquele filho como candidato óbvio. Chamado às pressas, o rapaz é descrito fisicamente antes de qualquer coisa: ruivo, de bela aparência, de belo aspecto (16:12). É esse mesmo Davi, ainda cheirando a curral, que Samuel unge diante dos irmãos:
“Enviou, pois, por ele, e introduziu-o; o qual era ruivo, de bela aparência e de belo aspecto. Então o SENHOR disse: Levanta-te e unge-o, que este é. E Samuel tomou o chifre do azeite, e ungiu-o dentre seus irmãos: e desde aquele dia em diante o espírito do SENHOR tomou a Davi. Levantou-se logo Samuel, e voltou-se a Ramá.”
A harpa que aliviava Saul
No mesmo capítulo, o texto registra o outro lado da moeda: o espírito do SENHOR se afasta de Saul, e um espírito mau da parte de Deus passa a atormentá-lo (16:14). Os conselheiros de Saul sugerem buscar alguém que saiba tocar harpa para aliviá-lo nos momentos de aflição (16:16), e o nome que chega até o rei é justamente o do filho mais novo de Jessé, descrito por um dos criados como homem valente, homem de guerra, prudente em suas palavras, e o SENHOR é com ele (16:18). Davi entra no palácio de Saul como músico contratado, sem título de general e sem fama de herói de guerra, e o texto registra o efeito, direto: 'e quando o espírito mau da parte de Deus era sobre Saul, Davi tomava a harpa, e tocava com sua mão; e Saul tinha refrigério, e estava melhor, e o espírito mau se afastava dele' (16:23).
Golias: o gigante que ninguém enfrentava
Anos depois (o texto não numera o intervalo exato entre a unção e a guerra), os exércitos de Israel e dos filisteus se enfrentam no vale de Elá, e um campeão filisteu de altura descrita como seis côvados e um palmo, Golias, de Gate, desafia Israel a mandar um único homem para decidir a batalha em duelo (1 Samuel 17:4-10). Por quarenta dias seguidos ele se apresenta, manhã e tarde, e ninguém em todo o exército de Saul aceita o desafio (17:16). É nesse ponto que Davi entra na cena, e entra como mensageiro, sem farda: o pai o enviou para levar comida aos irmãos mais velhos e trazer notícias de volta para casa (17:17-19).
Davi ouve o desafio de Golias e reage de um jeito que ninguém mais no acampamento reagia havia quarenta dias: pergunta, indignado, o que será dado ao homem que vencer aquele filisteu e tirar a humilhação de Israel, chamando Golias de 'filisteu incircunciso' e questionando por que ele ousa provocar os esquadrões do Deus vivente (17:26). O irmão mais velho, Eliabe, o repreende por soberba, acusando-o de ter vindo só para ver a batalha (17:28). Saul tenta vesti-lo com a própria armadura, mas Davi a recusa, porque nunca havia usado nada parecido (17:38-39), e desce ao vale só com o cajado, cinco pedras lisas do riacho e a funda que usava para proteger o rebanho de leões e ursos (17:34-36, 17:40). A resposta que dá ao gigante, antes do primeiro giro da funda, é o trecho mais citado de todo o capítulo (e quem procura outros versículos para dias difíceis encontra mais deles na lista de versículos de força):
“Tu vens a mim com espada e lança e escudo; mas eu venho a ti no nome do SENHOR dos exércitos, o Deus dos esquadrões de Israel, que tu provocaste. O SENHOR te entregará hoje em minha mão, e eu te vencerei, e tirarei tua cabeça de ti [...] E saberá toda esta congregação que o SENHOR não salva com espada e lança; porque do SENHOR é a guerra, e ele vos entregará em nossas mãos.”
Uma pedra, atirada com a funda, atinge Golias na testa e o derruba (17:49). Davi corre, toma a própria espada do gigante e corta-lhe a cabeça, sem ter empunhado espada alguma durante o combate (17:50-51). Os filisteus, ao verem o campeão morto, fogem, e o exército de Israel os persegue até as portas de suas próprias cidades (17:51-52).
Jônatas, o pacto, e o ciúme que virou perseguição
Depois da vitória, o texto registra uma amizade que atravessa o resto da história: 'a alma de Jônatas se apegou à de Davi, e Jônatas o amou como à sua alma' (18:1), e os dois firmam um pacto (18:3). É também depois de Golias que o clima muda para Davi dentro do próprio palácio. Voltando da batalha, as mulheres saem a receber os soldados dançando e cantando um refrão que vai voltar a persegui-lo pelo resto do reinado de Saul: 'Saul feriu seus milhares, e Davi seus dez milhares' (18:7).
Saul não esconde o ciúme: o texto registra que ele passa a olhar Davi com desconfiança a partir daquele dia (18:9). No mesmo capítulo, a desconfiança vira ação direta. Com o espírito mau outra vez sobre ele, e Davi tocando harpa como de costume, Saul arremessa a própria lança contra o músico, tentando pregá-lo na parede, duas vezes, e as duas vezes Davi se desvia (18:10-11). A partir daí, o que era ciúme vira perseguição declarada, e boa parte dos anos seguintes da vida de Davi é vivida em fuga.
Os anos de fugitivo e de onde nasceram alguns dos salmos
Da perseguição de Saul em diante, a vida de Davi se passa em cavernas, no deserto de Judá, e em territórios estrangeiros onde ele nem sempre é bem-vindo. Por duas vezes o texto registra Davi com a chance de matar o próprio Saul, uma numa caverna em En-Gedi (1 Samuel 24) e outra dentro do acampamento de Saul à noite (1 Samuel 26), e nas duas vezes ele recua, recusando-se a atacar 'o ungido do SENHOR' com as próprias mãos, mesmo sendo ele mesmo o próximo ungido. É desse mesmo período, segundo o cabeçalho do próprio texto hebraico, que nascem pelo menos três salmos: o Salmo 34, escrito depois de Davi fingir loucura para escapar do rei filisteu de Gate (1 Samuel 21), cuja leitura completa está no Salmo 34 comentado aqui no site; o Salmo 57, que o cabeçalho liga à fuga de Saul, na caverna; e o Salmo 142, uma oração que o cabeçalho também situa na caverna. Nenhum deles retrata um homem confiante o tempo todo: são orações escritas dentro do próprio aperto, e o momento em que ele já havia passado fica para depois. Quem quiser ler mais da voz de Davi em tempo de ameaça pode seguir para o Salmo 27 completo.
Rei em Hebrom, depois rei sobre todo Israel
Saul e Jônatas morrem juntos na batalha de Gilboa (1 Samuel 31), e Davi, ao saber, chora e compõe um lamento por ambos, incluindo o próprio homem que passou anos tentando matá-lo (2 Samuel 1:17-27). Os homens de Judá o ungem rei sobre a própria tribo, em Hebrom (2 Samuel 2:4), mas o resto de Israel segue por mais alguns anos com Is-Bosete, filho de Saul, num período de guerra civil entre as duas casas (2 Samuel 2-4). Só depois da morte de Is-Bosete os anciãos de todas as tribos vêm a Hebrom e ungem Davi rei sobre Israel inteiro (2 Samuel 5:3). Ele tinha trinta anos quando começou a reinar, e reinaria, ao todo, quarenta (2 Samuel 5:4). Uma das primeiras decisões do novo reinado é conquistar a fortaleza jebuseia de Jerusalém e fazer dela sua capital (2 Samuel 5:6-9).
A arca em Jerusalém
Rei consolidado, Davi traz a arca da aliança para Jerusalém, depois de um primeiro transporte fracassado, no qual um homem chamado Uzá morre ao tocar a arca para evitar que ela caísse (2 Samuel 6:6-7), episódio que assusta Davi a ponto de adiar o transporte por três meses (6:9-11). Quando finalmente a arca entra na cidade, Davi dança diante dela com toda a sua força (6:14), e sua esposa Mical, filha de Saul, o despreza por isso, vendo no rei dançando em público uma falta de dignidade (6:16, 6:20-23). É um atrito familiar registrado no meio de um dos momentos de maior celebração pública do reinado, e o texto o mantém à vista.
Bate-Seba e Urias, sem meio-termo
É no capítulo seguinte que o reinado de Davi muda de direção, e o texto conta tudo sem amaciar. Numa tarde em que os exércitos de Israel estão em campanha contra os amonitas e Davi ficou em Jerusalém (o texto marca o detalhe: o rei estava fora do lugar onde deveria estar, 2 Samuel 11:1), ele vê do terraço do palácio uma mulher se banhando.
“E aconteceu que levantando-se Davi de sua cama à hora da tarde, passeava-se pelo terraço da casa real, quando viu desde o terraço uma mulher que se estava lavando, a qual era muito bela. E enviou Davi a preguntar por aquela mulher, e disseram-lhe: Aquela é Bate-Seba filha de Eliã, mulher de Urias Heteu. E Davi enviou mensageiros, e tomou-a: e assim que entrou a ele, ele dormiu com ela. Purificou-se logo ela de sua imundícia, e se voltou à sua casa. E concebeu a mulher, e enviou-o a fazer saber a Davi, dizendo: Eu estou grávida.”
O texto já informa, antes mesmo de Davi mandar chamá-la, que ela é casada: mulher de Urias, o heteu, um dos próprios soldados de Davi (11:3). Nenhuma negociação e nenhum consentimento dela ficam registrados, e o verbo do texto é 'tomou-a'. Grávida, Bate-Seba avisa Davi, e o que ele faz a seguir é tentar encobrir o ocorrido, sem assumi-lo: manda chamar Urias de volta da guerra, sob o pretexto de saber notícias do front, na esperança de que ele durma com a própria mulher e a gravidez pareça legítima (11:6-8). Urias recusa duas vezes, alegando que não seria correto desfrutar da própria casa enquanto a arca e o exército de Israel dormem em tendas no campo de batalha (11:11). Davi tenta uma terceira vez, embriagando Urias de propósito (11:13), e ainda assim Urias não desce para casa. É quando a encobertura falha que Davi decide pela solução definitiva: manda Urias de volta ao front carregando, sem saber, uma carta para Joabe, a própria sentença de morte, com a ordem de posicioná-lo onde a batalha fosse mais forte e depois recuar o apoio, 'para que seja ferido e morra' (11:14-15).
Joabe cumpre a ordem, e Urias morre junto com outros soldados de Davi que caem na mesma manobra (11:16-17). Depois do luto formal, Davi manda buscar Bate-Seba e a toma como esposa (11:27), e o capítulo termina com a frase mais curta e mais pesada de toda a passagem: 'isto que Davi havia feito, foi desagradável aos olhos do SENHOR' (11:27).
Natã: 'Tu és aquele homem'
O SENHOR envia o profeta Natã a Davi com uma parábola, e a acusação direta fica para o fim. Conta de um homem rico, dono de muitos rebanhos, que em vez de sacrificar um animal próprio para alimentar um viajante, toma a única cordeira de estimação de um vizinho pobre, o único bem que a família pobre tinha, criada junto com os próprios filhos, tratada quase como uma filha (12:1-4). Davi, ouvindo a história como se fosse um caso jurídico real, se enfurece e sentencia que o homem rico merece morte, e deve restituir quatro vezes o valor da cordeira (12:5-6). É aí que Natã, sem hesitar, aponta:
“Então disse Natã a Davi: Tu és aquele homem. Assim disse o SENHOR, Deus de Israel: Eu te ungi por rei sobre Israel, e te livre da mão de Saul; Eu te dei a casa de teu senhor, e as mulheres de teu senhor em teu fundo: demais disto te dei a casa de Israel e de Judá; e se isto é pouco, eu te acrescentarei tais e tais coisas. Por que, pois, tiveste em pouco a palavra do SENHOR, fazendo o que era mau diante de seus olhos? A Urias Heteu feriste à espada, e tomaste por tua mulher a sua mulher, e a ele mataste com a espada dos filhos de Amom. Pelo qual agora não se apartará jamais de tua casa a espada; porquanto me menosprezaste, e tomaste a mulher de Urias Heteu para que fosse tua mulher.”
A resposta de Davi, depois de toda a parábola e toda a acusação, cabe numa única frase curta: 'Pequei contra o SENHOR' (12:13). Natã responde que o SENHOR removeu o pecado e que Davi não morrerá. No mesmo fôlego, avisa que o filho recém-nascido de Bate-Seba morrerá (12:13-14). O perdão e a consequência chegam juntos, e nenhum cancela o outro: o menino adoece e morre sete dias depois, apesar do jejum e das orações do próprio pai (12:15-18). Quem procura o lado do perdão nessa história pode continuar nos versículos sobre perdão. A tradição do saltério liga a esse mesmo episódio um dos salmos de arrependimento mais conhecidos da Bíblia: o cabeçalho do Salmo 51, no hebraico, identifica o poema como escrito depois que o profeta Natã foi ter com Davi, por causa do adultério com Bate-Seba. O salmo pede, sem rodeios: 'Tem misericórdia de mim, ó Deus, conforme a tua bondade [...] Lava-me bem de minha perversidade, e purifica-me de meu pecado [...] Contra ti, somente contra ti pequei, e fiz o mal segundo teus olhos' (Salmos 51:1-4), e mais adiante: 'Cria em mim um coração puro, ó Deus; e renova um espírito firme em meu interior' (51:10).
Absalão: o filho, a revolta, e o custo que a profecia já havia anunciado
O restante de 2 Samuel narra, capítulo a capítulo, o que Natã anunciara: 'eu levantarei sobre ti o mal de tua mesma casa' (12:11). Amnom, um dos filhos de Davi, estupra a própria irmã Tamar (2 Samuel 13:1-14). Absalão, irmão de Tamar, deixa passar o momento e nada faz na hora, mas dois anos depois manda matar Amnom em vingança (13:23-29) e foge para o exílio, onde passa três anos (13:37-38). Davi, dividido entre a saudade do filho e a dor pelo crime, leva anos para permitir que Absalão volte a Jerusalém, e mais tempo ainda para recebê-lo de volta à própria presença (14:23-24, 14:28-33). Uma vez restaurado, Absalão passa anos conquistando o coração do povo às portas da cidade, minando a autoridade do próprio pai (2 Samuel 15:1-6), até se declarar rei em Hebrom e forçar Davi a fugir de Jerusalém a pé, chorando, com a cabeça coberta (15:10-30).
A guerra entre pai e filho termina no bosque de Efraim, onde as tropas de Absalão são derrotadas (2 Samuel 18:6-8). Antes da batalha, Davi havia dado uma ordem explícita aos próprios comandantes: 'tratai benignamente por causa de mim ao jovem Absalão' (18:5). Mas Joabe, encontrando Absalão com a cabeça presa nos galhos de um carvalho enquanto a mula sob ele seguia andando (18:9), o mata com três dardos, contrariando a ordem direta do rei (18:14-15). A notícia chega a Davi como perda, e a vitória fica sem gosto:
“Então o rei se perturbou, e subiu-se à sala da porta, e chorou; e indo, dizia assim: Filho meu Absalão, filho meu, filho meu Absalão! Quem me dera que morresse eu em lugar de ti, Absalão, filho meu, filho meu!”
1 Reis 2: a morte de Davi
Davi passa os últimos capítulos de sua vida gerenciando a sucessão. Outro filho, Adonias, tenta se autoproclamar rei antes da hora, e é Natã, o mesmo profeta que confrontara Davi por causa de Bate-Seba, quem intervém para garantir que Salomão, filho de Bate-Seba, suba ao trono (1 Reis 1). No leito de morte, Davi chama Salomão e lhe dá as últimas instruções:
“E achegaram-se os dias de Davi para morrer, e mandou a Salomão seu filho, dizendo: Eu vou pelo caminho de toda a terra: esforça-te, e sê homem. Guarda a ordenança do SENHOR teu Deus, andando em seus caminhos, e observando seus estatutos e mandamentos [...] Para que confirme o SENHOR a palavra que me falou, dizendo: Se teus filhos guardarem seu caminho, andando diante de mim com verdade, de todo seu coração, e de toda sua alma, jamais, disse, faltará a ti homem do trono de Israel.”
Logo em seguida, porém, as instruções mudam de tom. Davi lembra a Salomão o que Joabe fez a dois generais em tempos de paz (matou Abner e Amasa a sangue-frio, 'derramando em paz o sangue de guerra') e orienta o filho a não deixar Joabe descer ao Xeol na velhice em paz (2:5-6). Manda também que Simei, um homem que havia amaldiçoado Davi anos antes e a quem o próprio rei jurara não matar, seja tratado de outro jeito depois da morte de Davi: 'farás seus cabelos grisalhos descerem com sangue ao Xeol' (2:8-9). São as últimas instruções registradas de um rei que, no mesmo capítulo, tinha acabado de recomendar ao filho que andasse nos caminhos do SENHOR de todo o coração: duas contas de sangue antigas, acertadas por procuração, no mesmo fôlego da bênção. O texto não comenta o contraste. Registra os dois lados, um atrás do outro.
Davi morre logo depois, e é sepultado na Cidade de Davi. O próprio texto fecha a conta do reinado com um número exato: quarenta anos ao todo, sete em Hebrom e trinta e três em Jerusalém (1 Reis 2:10-11). Salomão se assenta no trono, e o livro segue sem ele.
Como a vida de Davi se organiza em fases?
A história de Davi ocupa muitos capítulos e vários livros, e é fácil se perder entre o pastor, o fugitivo e o rei. A tabela organiza a vida dele em fases, com as passagens principais e os salmos que o próprio cabeçalho do texto liga a cada momento. Ela serve como índice para voltar ao capítulo certo.
| Fase | Onde ler | O que acontece | Salmo ligado |
|---|---|---|---|
| O jovem pastor de Belém | 1 Samuel 16:1-13 | Samuel unge o mais novo dos filhos de Jessé, esquecido no campo | Salmo 23, atribuído a Davi |
| Na corte de Saul | 1 Samuel 16:14-23 | Toca a harpa para acalmar o rei atormentado | - |
| O desafio de Golias | 1 Samuel 17 | Enfrenta o gigante com uma funda e cinco pedras, confiando em Deus | - |
| Fugitivo de Saul | 1 Samuel 19 a 27 | Vive em cavernas e no deserto, e poupa a vida de Saul duas vezes | Salmos 34, 57 e 142 |
| Rei em Hebrom e depois em Jerusalém | 2 Samuel 2 a 5 | É ungido por Judá e depois por todas as tribos, e faz de Jerusalém a capital | - |
| A arca em Jerusalém | 2 Samuel 6 | Traz a arca da aliança e dança diante dela | - |
| Bate-Seba e Urias | 2 Samuel 11 e 12 | Comete adultério, manda matar Urias e é confrontado pelo profeta Natã | Salmo 51 |
| A revolta de Absalão | 2 Samuel 15 a 18 | Foge de Jerusalém quando o filho se levanta contra ele | Salmo 3 |
| O fim da vida | 1 Reis 2:1-12 | Instrui Salomão e morre depois de quarenta anos de reinado | - |
Duas fases da tabela valem uma leitura à parte. A de Bate-Seba mostra o pior de Davi, e o Salmo 51 completo traz a oração que a tradição liga ao arrependimento dele. A do pastor mostra o começo mais simples, e o Salmo 23 completo acompanha esse começo com as imagens de cuidado que o jovem conhecia bem.
O que a história não diz
Em nenhum momento entre 1 Samuel 16 e 2 Samuel 11 o texto sinaliza que a queda está chegando. Nenhum aviso, nenhuma profecia de que o rei ungido, o matador de Golias, o amigo leal de Jônatas, vai um dia mandar matar um dos próprios soldados para encobrir um adultério. A queda chega sem aviso prévio dentro da narrativa, exatamente como chega na vida real. O texto também mantém a cena do terraço em toda a sua dureza e trata Bate-Seba como alguém que foi levada: o verbo usado é 'tomou-a' (11:4), e o próprio Natã, na parábola, a compara a uma cordeira que foi tirada de um homem indefeso, e a cordeira nunca foi vendida nem entregue.
A segunda coisa que o texto faz é manter a consequência de pé ao lado do perdão. Depois de Natã dizer 'também o SENHOR removeu teu pecado: não morrerás' (12:13), a expectativa comum seria a história seguir em frente sem mais menção ao caso. O que acontece é outra coisa: o filho recém-nascido morre em sete dias (12:18), e o restante de 2 Samuel (o estupro de Tamar, o fratricídio de Absalão, a revolta armada de um filho contra o pai) é narrado como cumprimento direto da sentença que Natã havia dado: 'eu levantarei sobre ti o mal de tua mesma casa' (12:11). O perdão foi real, a consequência também, e o texto as deixa lado a lado sem explicar por que uma não cancelou a outra.
'Homem segundo o coração de Deus': o que a frase significa
A frase mais repetida sobre Davi nem sequer aparece pela primeira vez com o nome dele. Ainda em 1 Samuel 13, antes de Davi ser sequer mencionado, Samuel diz a Saul que o SENHOR 'buscou para si homem segundo seu coração' para substituí-lo como líder (13:14). É uma frase sobre a escolha de um sucessor, escrita antes de qualquer nota sobre o caráter que Davi teria depois de anos de vida observada. Só em Atos, no Novo Testamento, a frase é explicitamente aplicada a Davi pelo nome, na boca do apóstolo Paulo, num discurso sobre a história de Israel:
“E tirando a este, levantou-lhes por rei a Davi, ao qual também deu testemunho, e disse: Eu achei a Davi, filho de Jessé, um homem conforme o meu coração, que fará toda a minha vontade.”
Ler essa frase como sinônimo de perfeição moral não sobrevive ao capítulo 11 de 2 Samuel, porque o mesmo texto que narra a unção de Davi como o escolhido de Deus narra também, sem disfarce, o adultério, o encobrimento e a morte encomendada de Urias. O que o resto da história sugere é a direção do coração de Davi quando confrontado com o pecado. Diante de Natã, Davi se recusa a se defender, a culpar Bate-Seba ou a minimizar: confessa em quatro palavras e aceita a consequência (12:13-14). É esse padrão, mais do que qualquer ausência de falha, que a Bíblia parece chamar de coração segundo Deus: voltar-se para o erro quando confrontado e deixar de se esconder dele.
Guia de leitura e audição: 1 Samuel 16 a 1 Reis 2
A história de Davi ocupa quarenta e dois capítulos, entre três livros. Lidos direto, sem parar, na mesma taxa de 200 palavras por minuto usada no guia de tempos deste site, levam cerca de 2h58min, perto do tempo que o guia dedica a Gênesis inteiro (3h12min), só que cobrindo três livros diferentes em vez de um. A versão narrada, no ritmo de cerca de 175 palavras por minuto usado para a Bíblia em áudio deste site, leva por volta de 3h27min, com música de fundo e controle de velocidade, disponível no Terra Gospel Premium.
- 1 Samuel 16-17: a unção secreta em Belém e o duelo com Golias no vale de Elá
- 1 Samuel 18-20: o pacto com Jônatas e o começo do ciúme de Saul
- 1 Samuel 21-31: os anos de fugitivo, até a morte de Saul e Jônatas em Gilboa
- 2 Samuel 1-5: o lamento por Saul, o reinado em Hebrom, e depois sobre todo Israel
- 2 Samuel 6-10: a arca trazida a Jerusalém e as guerras de consolidação do reino
- 2 Samuel 11-12: Bate-Seba, Urias, e a confrontação de Natã
- 2 Samuel 13-18: Amnom e Tamar, a revolta de Absalão e sua morte
- 2 Samuel 19-24: o retorno a Jerusalém e os capítulos finais do reinado
- 1 Reis 1-2: a sucessão de Salomão e a morte de Davi
Mantendo tudo junto
No Terra Gospel você pode grifar qualquer trecho da história de Davi em uma de quatro cores, escrever sua própria nota, e guardar tudo em Favoritos, o que ajuda numa história com tantas reviravoltas, em que vale a pena marcar 'o SENHOR olha o coração' e 'tu és aquele homem' no mesmo documento. A leitura, os grifos, as notas, os favoritos e o versículo do dia são gratuitos em português, inglês e espanhol; a Bíblia narrada, incluindo esses quarenta e dois capítulos lidos em voz alta, com música de fundo e controle de velocidade, faz parte do Premium.











