Poucas frases são repetidas tantas vezes por tanta gente diferente quanto o Pai Nosso. Está na missa católica, no culto protestante, na oração antes de dormir de quem nunca pisou numa igreja na vida adulta, na lembrança de infância de quem parou de praticar qualquer fé. É repetição em excesso, e por isso mesmo a maioria de quem recita o Pai Nosso não para para pensar no que está dizendo, frase por frase. Abaixo está a oração completa, do jeito que Mateus a registrou (pode ler direto, ou ouvir narrada enquanto acompanha o texto) e depois, parte por parte, o que cada trecho significa, incluindo o final que quase ninguém aprende a explicar.
O Pai Nosso completo
“Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. Seja feita a tua vontade, tanto na terra, assim como no céu. O pão nosso de cada dia nos dá hoje. E perdoa-nos nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores. E não nos conduzas à tentação, mas livra-nos do mal; porque teu é o Reino, o poder, e a glória, para sempre, Amém.”
O texto acima segue a tradução Bíblia Livre (BLIVRE), de Diego Santos, Mario Sérgio e Marco Teles, disponibilizada sob licença Creative Commons Atribuição 4.0, um projeto de tradução aberta da Bíblia para o português. É o texto que o Terra Gospel usa. A forma que se reza em voz alta na igreja, em comunidade, é a forma litúrgica tradicional, e ela pode variar um pouco de palavras entre as tradições, como você vai ver mais abaixo.
De onde vem essa oração, e por que Jesus a ensinou
O Pai Nosso está no meio do Sermão do Monte, o bloco mais longo de ensino de Jesus registrado num só lugar, que ocupa os capítulos 5 a 7 de Mateus. Logo antes da oração, Jesus vem falando sobre esmola, oração e jejum feitos em segredo, em contraste com quem faz essas três coisas para ser visto. Dentro dessa mesma fala ele chega à oração em si, e a orientação que dá, no texto da Bíblia Livre, é: "E quando orardes, não façais repetições inúteis como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos" (Mateus 6:7). O Pai Nosso vem logo depois, apresentado como modelo: "Vós, portanto, orareis assim". Jesus dá as palavras como um padrão a seguir, e a ideia de uma fórmula obrigatória, citada palavra por palavra, fica de fora.
Em Lucas 11, a mesma oração aparece de um jeito diferente. Ela surge como resposta direta a um pedido, sem vir dentro de um ensino maior. Um discípulo vê Jesus orando e diz: "Senhor, ensina-nos a orar, como João também ensinou a seus discípulos" (Lucas 11:1), e Jesus responde com essencialmente a mesma oração. Por causa dessa dupla origem, um discurso e um pedido direto, os estudiosos entendem o Pai Nosso menos como uma fórmula fixa e mais como algo que Jesus ensinou mais de uma vez, com palavras um pouco diferentes cada vez, porque o que importava era a estrutura da oração e a decoreba exata ficava em segundo plano.
Vale dizer com honestidade que a versão de Lucas é mais curta em boa parte dos manuscritos gregos mais antigos que sobreviveram. Nesses manuscritos faltam a ela a linha sobre a vontade de Deus ser feita na terra como no céu e o final sobre livrar do mal, e a oração fica bem mais enxuta, com o pedido pelo pão de cada dia, o pedido de perdão e o pedido para não ser posto em tentação. Bíblias que traduzem mais de perto esses manuscritos antigos de Lucas trazem essa versão enxuta. Outras traduções, incluindo a que abre este artigo, seguem uma base de texto que já harmoniza Lucas com a versão mais completa de Mateus. Nenhuma das duas escolhas é uma invenção, e as duas refletem a mesma diferença de tradição textual que aparece em vários pontos do Novo Testamento. Ela será explicada com mais detalhe adiante, quando chegarmos à última linha do Pai Nosso.
"Pai nosso, que estás nos céus" e a novidade de chamar Deus de Pai
No judaísmo do primeiro século, Deus já era chamado de Pai em alguns textos, mas quase sempre de forma coletiva e distante: Pai de Israel como nação, e raramente Pai de cada pessoa em particular. O que chama atenção nos evangelhos é a forma como Jesus se dirige a Deus em suas próprias orações, pelo termo aramaico 'Abba', uma palavra de tratamento familiar, mais próxima de como uma criança chama o próprio pai do que de um título religioso formal. Ensinar os discípulos a abrir a oração chamando Deus de 'Pai nosso', quando poderia ter escolhido títulos como 'Senhor do universo' ou 'Rei dos reis' (que também aparecem na Bíblia), é convidar quem reza para dentro dessa mesma relação de proximidade. O 'nosso' logo em seguida evita que a oração vire algo só individual: é um pedido feito no plural, junto com outros, mesmo quando rezado sozinho.
'Que estás nos céus' completa a frase sem contradizer a proximidade anterior. A expressão descreve autoridade: é um Pai íntimo o bastante para ser chamado assim, e ao mesmo tempo grande o bastante para governar tudo. As duas ideias, perto e soberano, abrem a oração juntas, e o resto do texto trabalha em cima dessa combinação.
"Santificado seja o teu nome"
O primeiro pedido da oração trata de Deus e deixa a pessoa que reza de fora. Ele pede que o próprio nome de Deus seja tratado como sagrado, reconhecido pelo que é, sem ser banalizado. Na cultura bíblica, o nome de alguém carrega a própria identidade e o próprio caráter, e é bem mais que um rótulo. Pedir que o nome de Deus seja 'santificado' é pedir que o modo como as pessoas falam de Deus, e vivem diante dele, corresponda a quem ele realmente é. É uma oração sobre reverência antes de ser uma oração sobre necessidade, e o primeiro dos pedidos olha para Deus antes de olhar para quem está orando.
"Venha o teu Reino"
O 'Reino de Deus' é o tema central da pregação de Jesus nos evangelhos, e aqui ele entra na oração como pedido: que o governo de Deus se estabeleça de fato. A frase seguinte, 'seja feita a tua vontade, tanto na terra, assim como no céu', funciona quase como uma explicação do que esse Reino significa na prática. Ele descreve um estado de coisas em que o que Deus quer acontece aqui embaixo do mesmo jeito que já acontece, sem obstáculo, no céu, e a ideia de um território ou de uma data marcada no calendário fica de fora. É um pedido com duas camadas de tempo dentro dele: a tradição cristã lê o Reino de Deus como algo que já começou com a vinda de Jesus e, ao mesmo tempo, como algo que ainda está por vir de forma completa. O verbo 'venha' pede as duas coisas ao mesmo tempo, sem escolher entre elas.
"O pão nosso de cada dia" e uma palavra que ninguém tem certeza do que significa
Depois dos três primeiros pedidos, voltados para Deus, a oração muda de direção e passa a pedir por necessidades humanas concretas, começando pela mais básica delas, comida. O verso 11 esconde um dos maiores quebra-cabeças de tradução do Novo Testamento inteiro: a palavra grega traduzida como 'de cada dia', epiousios, é tão rara que praticamente não aparece em nenhum outro texto grego que sobreviveu até hoje fora dessas duas passagens, Mateus 6:11 e Lucas 11:3. Não existe um dicionário grego da época em que se possa simplesmente procurar o significado dela. Os tradutores tiveram que reconstruir o sentido a partir das próprias raízes da palavra, e chegaram a mais de uma resposta.
A leitura mais tradicional, presente na maioria das traduções em português, entende epiousios como algo próximo de 'necessário para a existência' ou simplesmente 'de cada dia', um pedido por sustento básico, dia após dia, sem acumular além do necessário. Existe uma segunda leitura, tomando a palavra como derivada de uma raiz grega ligada a 'o que vem' ou 'o dia seguinte', que resultaria em algo como 'o pão de amanhã', um pedido antecipado pelo sustento do dia que ainda vai chegar. A prova mais concreta dessa incerteza está na própria história da tradução bíblica. Jerônimo, ao traduzir o Novo Testamento para o latim no século 4, verteu a mesma palavra grega de duas formas diferentes nos dois evangelhos: 'supersubstantialem' em Mateus, sugerindo algo acima do pão comum, e 'quotidianum', o pão 'de cada dia', em Lucas. Se o maior tradutor bíblico da Antiguidade não conseguiu decidir entre um sentido e outro dentro do próprio trabalho, é sinal de que a palavra realmente permite mais de uma leitura honesta, e ninguém consegue preencher essa lacuna sem inventar uma certeza que a história da tradução não tem.
"Perdoa-nos... assim como perdoamos" e o único pedido com uma condição
Este é o único dos sete pedidos da oração que vem amarrado a uma condição explícita: perdão recebido na mesma medida do perdão dado. Jesus não deixa esse detalhe passar batido. Logo depois de terminar a oração, ele volta ao ponto sozinho, em Mateus 6:14-15, dizendo que quem perdoa os outros será perdoado pelo Pai celestial e quem não perdoa, não será. É a única linha do Pai Nosso que ganha um comentário à parte, no mesmo capítulo, o que sugere que Jesus considerava esse ponto fácil de ser ignorado por quem reza a oração de memória. O tema do perdão, sozinho, é grande o bastante para render um texto inteiro. O Terra Gospel tem um artigo dedicado aos versículos sobre perdão, para quem está exatamente nesse ponto, tentando perdoar algo que ainda dói.
"Não nos conduzas à tentação" e uma tradução que incomoda, com bons motivos
Poucas linhas do Pai Nosso geram tanta dúvida quanto essa. Lida ao pé da letra, ela parece sugerir que Deus poderia conduzir alguém à tentação, uma ideia que contradiz outro trecho do Novo Testamento, a carta de Tiago, que afirma diretamente que Deus não tenta ninguém para o mal (Tiago 1:13). Diferentes traduções em português resolvem essa tensão de formas diferentes. A Bíblia Livre citada aqui usa 'não nos conduzas'. Outras versões preferem uma formulação que fala de não deixar cair em tentação, deslocando o peso da ação de Deus para a proteção contra a queda, e outras ainda usam um verbo de indução. Nenhuma dessas escolhas é errada, porque o verbo grego original, eisenenkēs, é ambíguo o bastante para sustentar mais de uma tradução. O próprio Vaticano revisou oficialmente a versão italiana da oração em 2019, trocando a forma antiga, que falava em induzir, por outra que fala em não abandonar à tentação, justamente para deixar mais claro que a proteção pedida é contra ceder à tentação, sem sugerir que Deus a provoque. A leitura mais equilibrada trata esse verso como um pedido de proteção contra a fraqueza diante da tentação, e a origem da tentação fica fora da discussão.
A linha final: "teu é o Reino, o poder e a glória"
Esta é a parte que pede mais precisão do que sensacionalismo. A frase final do Pai Nosso, do jeito que a maioria das pessoas aprendeu a recitar, 'porque teu é o Reino, o poder e a glória, para sempre, Amém', não está presente nos manuscritos gregos mais antigos e mais confiáveis de Mateus que sobreviveram, dois deles do século 4. Ela consta no bloco de Mateus 6:9-13 acima porque a Bíblia Livre segue uma base de manuscritos posterior, que já traz a linha. Por isso as edições críticas mais recentes do texto grego do Novo Testamento, usadas como base pela maioria das traduções bíblicas modernas em inglês, tratam essa linha como um acréscimo posterior ao texto original de Mateus, e reservam a expressão palavra do próprio evangelho para o que vem antes dela.
A linha tem uma história antiga e legítima, e nada nela aponta para uma invenção ou uma fraude. Um texto cristão muito antigo, a Didaquê, um manual de instrução da igreja que remonta ao fim do primeiro século ou início do segundo, quase contemporâneo dos próprios evangelhos, já traz uma forma curta de doxologia logo depois do Pai Nosso: 'porque tua é a força e a glória para sempre'. Isso mostra que encerrar essa oração com uma linha de louvor era um hábito de adoração cristã muito antigo, quase da mesma época dos apóstolos, mesmo que essa linha não fizesse parte do texto original escrito por Mateus. Com o tempo, esse costume litúrgico de encerrar a oração assim acabou sendo copiado para dentro do próprio texto bíblico por alguns escribas, e foi assim que passou a aparecer impresso em traduções, como a que abre este artigo, que seguem uma base de manuscritos posterior a essa inserção.
O Pai Nosso em uma tabela
Para guardar a estrutura da oração, a tabela abaixo resume cada frase, o que ela pede e onde a Bíblia toca no mesmo assunto. As referências ficam como pontos de partida para a sua leitura, e o texto dessas passagens você encontra na Bíblia Livre, dentro do app.
| Frase da oração | O que ela pede | Versículo relacionado |
|---|---|---|
| Pai nosso, que estás nos céus | Aproximação de Deus como Pai, junto com a comunidade | Romanos 8:15; Gálatas 4:6 |
| Santificado seja o teu nome | Que Deus seja reconhecido como santo | Êxodo 20:7; Salmos 111:9 |
| Venha o teu Reino | Que o governo de Deus se estabeleça | Marcos 1:15; Lucas 17:21 |
| Seja feita a tua vontade | Alinhar a própria vontade à de Deus | Mateus 26:39; Salmos 40:8 |
| O pão nosso de cada dia nos dá hoje | Sustento para o dia de hoje | Êxodo 16:4; Provérbios 30:8; Mateus 6:25-34 |
| Perdoa-nos nossas dívidas | Perdão de Deus e disposição para perdoar | Mateus 6:14-15; Efésios 4:32; Colossenses 3:13 |
| Não nos conduzas à tentação | Proteção contra ceder à tentação | Mateus 26:41; 1 Coríntios 10:13; Tiago 1:13 |
| Livra-nos do mal | Livramento do mal e do maligno | João 17:15; 2 Tessalonicenses 3:3 |
| Teu é o Reino, o poder e a glória | Fecha a oração com louvor | 1 Crônicas 29:11 |
Por que a oração muda um pouco entre católicos e protestantes
Essa mesma questão da doxologia explica boa parte da diferença mais notada entre como católicos e protestantes rezam o Pai Nosso, e aqui estamos falando da forma litúrgica, rezada em comunidade. Na liturgia da missa católica, a oração termina em 'livra-nos do mal', sem seguir direto para 'porque teu é o Reino'. Depois dessa linha, o padre reza sozinho um pedido à parte, chamado embolismo, pedindo que a comunidade seja livre de todo mal e viva em paz. Só depois disso a assembleia responde em conjunto com a doxologia, 'porque teu é o Reino, o poder e a glória, para sempre', como uma resposta separada, e a frase deixa de ser a continuação direta da anterior. Na maioria das igrejas protestantes, a oração é rezada de uma vez só, do início ao fim, com a doxologia encaixada diretamente na sequência, sem pausa nem oração intercalada. O resultado é a mesma oração, dividida em lugares um pouco diferentes dentro do culto, e cada tradição encaixa o mesmo texto na sua liturgia do seu jeito.
Como usar o Pai Nosso: modelo ou recitação, os dois valem
As duas introduções que os evangelhos dão à oração já sugerem os dois usos que ela recebe até hoje. Em Mateus, Jesus diz 'orareis assim', um advérbio de modo que sugere um padrão a seguir, uma estrutura para orar com as próprias palavras. Em Lucas, ele diz 'quando orardes, dizei', um verbo de fala direta que sugere que essas mesmas palavras sejam repetidas. A tradição cristã nunca escolheu apenas uma das duas leituras, e não precisa escolher. Recitar o Pai Nosso palavra por palavra, como parte de um culto, do terço ou de uma oração diária, é uma prática válida com quase dois mil anos de história. Usar a estrutura da oração (adoração, entrega, pedido de sustento, pedido de perdão, pedido de proteção) como roteiro para orar com as próprias palavras também é um uso legítimo, sugerido pelo próprio texto de Mateus. Os dois jeitos cabem, e nenhum deles é o único certo. Para começar ou terminar o dia com essa estrutura, vale ver a oração da manhã e a oração da noite. E para entender por que toda oração termina como termina, há o texto sobre o significado de amém, aleluia e hosana.
No Terra Gospel você pode grifar qualquer trecho do Pai Nosso em uma de quatro cores, escrever sua própria nota e guardar tudo em Favoritos. A leitura, os grifos, as notas, os favoritos e o versículo do dia são gratuitos em português, inglês e espanhol. A Bíblia narrada, incluindo o Evangelho de Mateus inteiro, lido em voz alta, com música de fundo e controle de velocidade, faz parte do Premium.





