O português pede a uma palavra só um trabalho que não é razoável. Eu amo meu cônjuge, amo meu melhor amigo, amo essa música, amo brigadeiro — mesma palavra, quatro coisas diferentes acontecendo por baixo dela. O grego, a língua em que a maior parte do Novo Testamento foi escrita, não achatou isso numa única palavra. Manteve três em uso corrente, e saber qual delas está por trás de um versículo em português muda o que esse versículo está realmente afirmando.
Três palavras para uma palavra só
Ágape é a palavra que Paulo busca quando quer descrever o amor como algo decidido e feito, não sentido. É a palavra por trás de João 3:16, e é a palavra que ganha sua definição por uma lista de verbos em 1 Coríntios 13 — paciente, bondoso, não invejoso — em vez de por uma descrição de sentimento. Philia é o amor entre pessoas em pé de igualdade: amigos, companheiros, gente que se escolhe sem laço de sangue e sem carga romântica forçando a escolha. É a raiz de Filadélfia, a cidade do amor fraterno, e é a palavra por trás de Jesus dizendo aos discípulos que ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. Eros nunca aparece como palavra no texto do Novo Testamento, mas nomeia exatamente o tipo de amor de que Cânticos dos Cânticos está encharcado da primeira à última linha, e a Bíblia inclui esse livro sem se encolher diante dele.
| Palavra grega | O que ela descreve | Onde aparece nesta lista |
|---|---|---|
| Ágape | Amor como decisão e ação, dirigido a alguém independente do que essa pessoa mereceu | 1 Coríntios 13, João 3:16, Romanos 5:8 |
| Philia | Lealdade e afeto entre iguais — amigos, companheiros, família escolhida | João 15:13, Provérbios 17:17, 1 Pedro 4:8 |
| Eros | Desejo romântico e físico, nomeado sem constrangimento | Cânticos 8:6-7 |
Para que 1 Coríntios 13 foi realmente escrito
Vale dizer isso sem rodeio, e sem nenhuma intenção de tirar o capítulo de ninguém: 1 Coríntios 13 não foi composto para um casamento. Paulo o escreveu no meio de uma carta a uma igreja em Corinto que discutia, entre outros problemas, qual dom espiritual tornava uma pessoa mais importante do que o crente sentado ao lado dela. O capítulo 12 lista os dons. O capítulo 14 volta à discussão específica, principalmente sobre falar em línguas durante o culto. O capítulo 13 fica entre os dois como a correção para a briga inteira — dons sem amor, diz Paulo, são só barulho, por mais impressionante que o barulho pareça.
“Ainda que eu falasse as línguas dos seres humanos e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa, ou como o sino que retine.”
O metal que soa e o sino que retine não eram instrumentos neutros para um ouvido coríntio do primeiro século — eram o som do culto barulhento e cheio de exibição dos templos pagãos vizinhos. Paulo está dizendo a crentes talentosos e competitivos que suas manifestações espirituais mais impressionantes soam exatamente como aquele barulho religioso se não houver amor por baixo.
“O amor é paciente, é bondoso; o amor não é invejoso; o amor não é orgulhoso, não é arrogante. O amor não trata mal; não busca os próprios interesses, não se ira, não é rancoroso. Não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo aguenta, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
Essa é a parte que fez o capítulo migrar de uma carta sobre briga interna de igreja para a passagem mais lida em casamentos no planeta, e o motivo não é um acaso. Todo verbo aqui é comportamental, não emocional — paciente, bondoso, não se ira facilmente são coisas que uma pessoa faz ao longo de anos, não um sentimento que se tem num único momento. Paulo escreveu uma definição de amor resistente o bastante para sobreviver a uma congregação em conflito. E ela é exatamente o que um casamento também precisa.
“E agora continuam a fé, a esperança, e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor.”
Fé e esperança, no argumento de Paulo alguns versículos antes, são parciais — pertencem a um mundo onde vemos as coisas de forma incompleta. O amor é o único dos três que não se torna dispensável quando tudo fica claro. Esse é o argumento para chamá-lo de maior: não porque se sente mais forte, mas porque é o único que continua de pé no fim.
O amor que começou tudo
“Porque Deus amou ao mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito; para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”
O verbo aqui é ágape, e Deus é o sujeito dele — a frase começa com ele amando antes de dizer qualquer coisa sobre uma resposta. Essa ordem importa no resto desta seção: nos versículos abaixo, o amor de Deus continua aparecendo como o primeiro movimento, não como a recompensa pelo primeiro movimento de outra pessoa.
“Pois tenho certeza que nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem poderes, nem o presente, nem o futuro, nem altura, nem profundeza, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.”
Paulo constrói essa lista logo depois de nomear o que de fato acontecia com a igreja em Roma — aflição, angústia, perseguição, fome, perigo, espada, citados alguns versículos antes no mesmo capítulo. A lista do que não consegue separar os crentes do amor de Deus não é hipotética; ela responde a uma lista do que já era verdade.
“Amados, nos amemos uns aos outros; porque o amor é de Deus, e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.”
“Mas Deus prova o seu amor por nós através de Cristo haver morrido por nós, quando ainda éramos pecadores.”
“Nós o amamos, porque ele nos amou primeiro.”
Junte esses dois últimos e a sequência é o ponto inteiro: o amor não foi uma resposta a um bom comportamento, e o nosso também não deveria ser o primeiro movimento. Ele é descrito como reação, como algo que vem depois de algo que já aconteceu.
Amar o próximo
“"Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com todo o teu entendimento." ... E o segundo, semelhante a este, é: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo."”
Jesus não estava introduzindo um mandamento novo na segunda metade dessa resposta — estava citando Levítico, uma frase que já estava na Lei havia mais de mil anos quando ele a disse. O que ele fez foi ranquear essa frase: não um complemento menor abaixo de amar a Deus, mas um mandamento com o mesmo peso, colocado bem ao lado do primeiro.
Certa vez um estudioso da Lei tentou estreitar esse mandamento perguntando a Jesus quem exatamente contava como seu próximo, procurando uma categoria com limite definido. Jesus respondeu com uma história em vez de uma definição — um viajante deixado quase morto na estrada de Jerusalém a Jericó, ignorado por um sacerdote e por um levita, e socorrido por um samaritano, alguém de um grupo que a plateia esperaria ver passar direto, não parar. Jesus nunca responde de fato à pergunta do estudioso sobre quem se qualifica como próximo. Ele a inverte: o próximo na história não é o homem que precisava de ajuda, é aquele que parou — e a instrução no fim é simplesmente ir e fazer o mesmo.
“A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor uns aos outros, pois quem ama o outro tem cumprido a Lei. ... O amor não faz mal ao próximo. Assim, o cumprimento da Lei é o amor.”
- 1 Coríntios 16:14 — "Todas as vossas coisas sejam feitas em amor", colocado por Paulo bem no fim da mesma carta que dedicou o capítulo 13 a definir o que essa palavra significa.
Os versículos realmente sobre casamento
1 Coríntios 13 funciona num casamento por causa do que diz sobre comportamento, não porque foi escrito pensando num noivo e numa noiva. Combiná-lo com textos que de fato tratam de um casal completa o quadro, e não falta opção.
“Portanto, deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e se achegará à sua mulher, e serão uma só carne.”
“Dois são melhores do que um, porque eles têm melhor recompensa por seu trabalho. Porque se vierem a cair, um levanta ao seu companheiro; mas ai daquele que está só, pois caso caia, não há outro que o levante. Também, se dois se deitarem juntos, eles se aquecem; mas como alguém sozinho poderá se aquecer? E se alguém prevalecer contra um, dois podem resistir contra ele; porque o cordão de três dobras não se rompe tão depressa.”
Essa imagem final, o cordão de três dobras, é o motivo pelo qual essa passagem aparece em leituras de casamento mais do que suas vizinhas em Eclesiastes — muitos casais a ouvem como duas vidas mais Deus formando um laço mais forte do que qualquer um sozinho, ainda que o próprio texto não diga explicitamente quem é o terceiro fio.
“Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço; porque o amor é forte como a morte, e o ciúme é severo como o Xeol; suas brasas são brasas de fogo, labaredas intensas. Muitas águas não poderiam apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa por este amor, certamente o desprezariam.”
Isto é eros com nome e sobrenome, dito num livro da Bíblia construído quase inteiro em torno do desejo entre as duas vozes que aparecem nele, uma delas de uma mulher, sem constrangimento por querer e ser querida. Ninguém transforma isso numa metáfora moralizada sobre a igreja; é um poema de amor, mantido no cânon como tal.
Efésios 5, lido desde o início
Efésios 5 é uma das passagens mais discutidas em casamentos, principalmente porque costuma ser citada a partir do meio, em "mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos", como se essa frase abrisse o assunto. Não abre. O versículo bem antes dela abre, e é dirigido aos dois cônjuges ao mesmo tempo.
“Sujeitando-vos uns aos outros no temor a Deus.”
Tudo o que vem depois — a instrução às esposas, a instrução aos maridos — se lê como duas aplicações desse único mandamento compartilhado, dirigido a cada cônjuge por um ângulo diferente, não duas regras separadas entregues a dois tipos de pessoa diferentes. O versículo 21 é a moldura dentro da qual o resto da passagem se encaixa.
“Maridos, amai as vossas próprias esposas, assim como também Cristo amou a Igreja,”
Paulo não manda os maridos serem servidos — manda que se entreguem, o mesmo verbo usado algumas linhas depois para o que Cristo fez. Lido ao lado da sujeição mútua do versículo 21, isso não é uma tarefa mais leve do que a dada às esposas; se alguma coisa, é a mais difícil de imaginar na prática.
“Assim também vós, cada um individualmente, ame a sua própria esposa como a si mesmo, e a mulher respeite o marido.”
Amor e respeito, pedidos das duas pessoas no casamento, fechando uma passagem que abriu pedindo a mesma sujeição dos dois. Essa é a forma inteira do texto — não um manual de hierarquia, um chamado à entrega mútua que se resolve de um jeito diferente para cada cônjuge.
A amizade por baixo do casamento
“Ninguém tem maior amor que este: que alguém ponha sua vida por seus amigos.”
“O amigo ama em todo tempo, e o irmão nasce para ajudar na angústia.”
“Mas, acima de tudo, tende fervoroso amor uns para com os outros; porque o amor cobrirá uma multidão de pecados.”
Esses três são philia, não eros, e vale incluí-los numa lista de leitura de casamento justamente porque um casamento funciona com esse tipo de amor tanto quanto com o romântico — a versão que aparece numa terça-feira qualquer, não só a que aparece num poema.
Usando esses versículos nos votos ou num cartão
- 01Escolha uma frase comportamental de 1 Coríntios 13:4-5 em vez de recitar o capítulo inteiro — um versículo vira uma promessa que dá para acompanhar de perto, o que a passagem inteira, lida como um bloco só, costuma não permitir.
- 02Combine um versículo sobre o amor de Deus com um sobre casamento, para que a leitura aponte para além do casal, não só para ele.
- 03Se for citar Efésios 5, cite o versículo 21 junto com a metade da passagem que você escolher, para que a sujeição mútua com que ela começa não se perca na leitura.
- 04Escreva a referência ao lado do versículo, não só as palavras — isso transforma uma frase bonita em algo que quem lê pode abrir e conferir depois.
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